Ki
Tem uma música tocando agora, em algum lugar do mundo, numa playlist de madrugada de alguém que nunca pisou no Japão, nunca viveu os anos 80, e nem fala japonês.
A pessoa não sabe o nome da cantora. Não entende a letra. Mas sente alguma coisa. Uma nostalgia de um lugar onde nunca esteve, de um tempo que nunca viveu.
Isso é City Pop. E essa sensação estranha, esse saudosismo emprestado, não é acidente. É exatamente o que o gênero sempre foi.

Shō
Pra entender o City Pop, precisa entender o Japão que veio antes dele.
Um Japão tradicional, agrário, devastado pela Segunda Guerra Mundial. Um país que perdeu, que se reconstruiu sob ocupação, que carregava o peso histórico de uma derrota total. Ser um país nacionalista, imperial e de mentalidade militarizada certamente dificulta bastante se recuperar de uma derrota dolorida em uma guerra de caráter global.
E mesmo assim, o Japão se recuperou rápido. Rápido demais, talvez. Graças à contribuição econômica cedida pelos Estados Unidos e à fabricação e consumo de altas tecnologias, o Japão permaneceu dentro de uma bolha econômica que não parava de crescer. Já na década de 50, o crescimento econômico japonês chegava aos 7% ao ano, números que se sustentariam até 1990.
De um país agrário e tradicional, o Japão virou, em poucas décadas, uma das maiores potências tecnológicas do mundo. As ruas se encheram de neon. Os carros, de eletrônicos importados. As cidades, de gente trabalhando.
Foi nesse cenário, no fim dos anos 70 e auge nos 80, que o City Pop nasceu. Criado como uma resposta à crescente urbanização e modernização do país, numa época em que as cidades se desenvolviam rapidamente e a vida urbana se tornava cada vez mais agitada.

Ten
Aqui é onde a história fica densa.
O City Pop irradiou nos sons de carros das metrópoles do Japão durante os anos 80, existindo como uma trilha sonora para um mundo de quase-sonho, um estado otimista que o país vivia graças à bolha de preços de ativos japoneses. Synth, jazz suave, disco, funk. Tudo embrulhado numa estética de luxo, liberdade e cosmopolitismo.
Só que por trás da batida animada, tinha alguma coisa quebrada.
City Pop refletia uma nova vida de lazer e riqueza, mas também lidava com uma forma muito particular de melancolia urbana, a solidão que te aperta no meio da multidão, o medo do vazio que se instala quando tudo que você quer parece estar bem ali, ao alcance.
Esse é o ponto. O Japão tava trabalhando muito. A vida urbana estava se tornando cada vez mais agitada, e por trás de toda a prosperidade visível, tinha gente exausta, sem tempo pra viver as coisas que realmente importavam. A música era, ao mesmo tempo, celebração e fuga.
Nenhuma canção carrega esse paradoxo melhor que “Plastic Love”, de Mariya Takeuchi. Seu arranjo animado contrasta com letras melancólicas que descrevem uma mulher que abraça um estilo de vida vazio e hedonista depois de ter sido magoada por um amor.
Dançante. Brilhante. E sobre o vazio.
Um tradutor que escreveu sobre o álbum resumiu bem: é uma canção que você ouve e dança, uma canção de festa que critica a própria festa. Compramos coisas, nos enchemos de objetos que não precisamos, vamos a festas, tudo pra evadir nossas responsabilidades, nossos demônios internos.
Isso não é coincidência de uma música. É o retrato sonoro de uma geração inteira.

Ketsu
O City Pop morreu junto com a bolha econômica japonesa, no início dos anos 90. O crescimento do Japão já não era mais evidente, crises econômicas derrotaram o estilo de vida que acompanhava as músicas, e os jovens da época não sentiram mais nenhuma afinidade pelas canções.
Por quase trinta anos, ficou esquecido. Até que, em julho de 2017, um vídeo de oito minutos no YouTube mudou tudo. Entre 2017 e 2019, o vídeo de “Plastic Love” foi promovido pelo algoritmo de recomendação do YouTube e viralizou, acumulando mais de 22 milhões de visualizações.
Ninguém sabe exatamente por quê. Não está totalmente claro por que o algoritmo selecionou esse upload específico da música. Mas o efeito foi imediato: a mesma máquina que recomenda dancinhas virais e vídeos de animais fofos passou a empurrar uma canção de 1984 para milhões de pessoas que nunca tinham ouvido falar nela.
E o mais curioso é o que isso revela sobre quem ouve hoje. A própria Mariya Takeuchi comentou: “Considerando que era cantada quase toda em japonês, achamos que seria impossível ela chegar lá fora. Mas olhando os comentários no YouTube agora, muitos ouvintes realmente não parecem se importar com o idioma.”
Um pesquisador descreveu o fenômeno de forma direta: chame de falsa nostalgia, chame de memória emprestada, ou chame pelo que realmente é, uma geração tão desconectada do próprio presente que está escapando para a utopia fracassada de outra pessoa.
E talvez seja exatamente isso. A geração que hoje ouve “Plastic Love” às três da manhã, sozinha, no quarto, também trabalha demais. Também tem pouco tempo pra viver o que importa. Também sente aquele vazio disfarçado de produtividade, de meta batida, de notificação respondida.
O Japão dos anos 80 cantava sobre isso sem saber que estava sendo profético. E agora, décadas depois, num mundo digital esgotado, encontramos naquele synth brilhante e naquela voz suave a mesma coisa que eles sentiam: a vontade de dançar enquanto, por dentro, alguma coisa pede descanso.
Talvez por isso a gente não consiga parar de ouvir. Talvez “I can’t stop the loneliness” não seja só uma frase de música antiga.
Talvez seja a gente, hoje, se reconhecendo nela.
